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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

BIENAL: CIDADE NÃO VISTA



Cauê Alves, curador adjunto

Num mundo imagético e midiático em que a topologia tende a ser anulada pela visão planificada dos mapas e satélites, onde a aparência visível é explorada até a exaustão, a ponto de quase anestesiar os olhos, experiências artísticas que ultrapassam o âmbito da pura visibilidade podem ser ainda mais significativas. Em Cidade Não Vista, o contato com a urbe a partir do tato, dos odores, dos sons, das palavras e de mínimas intervenções, é uma estratégia de ativação de territórios de Porto Alegre. Explorar outros sentidos é um modo de interferir na relação cotidiana que o pedestre tem com o espaço público. Ao atingir o cidadão desprevenido, o trabalho de arte pode colaborar na abertura para uma relação não usual com o território da cidade.
A partir de um processo de arqueologia urbana, foram identificados nove lugares do centro da capital gaúcha que despertam interesse arquitetônico, histórico, sociológico, ou, simplesmente, curiosidade. São eles: o Aeromóvel, o Observatório, o Viaduto Otávio Rocha, a Chaminé da Usina do Gasômetro, o Jardim do Palácio Piratini, a Escadaria da Rua João Manoel, a cúpula da Casa de Cultura Mario Quintana (um espaço cultural público), a Garagem dos Livros (um espaço literário) e o prédio da Antiga Prefeitura. A ênfase foi dada a locais que muitas vezes não são percebidos pela população, seja pelo automatismo que costuma caracterizar a experiência na cidade, pela dificuldade de acesso ou por estarem fora do imaginário coletivo.
Todas as obras destacam o lugar e privilegiam a experiência sensorial.

ARTISTAS E LOCAIS:
Elida Tessler – Garagem dos Livros
Marlon de Azambuja – Viaduto Otávio Rocha
Oswaldo Maciá – Chaminé da Usina do Gasômetro
Paulo Vivacqua – Observatório
Pedro Palhares – Aeromóvel
Sissel Tolaas – Jardim do Palácio Piratini
Tatzu Nishi – Antiga Prefeitura
Valeska Soares / O Grivo – Casa de Cultura Mario Quintana
Vitor Cesar – Escadaria da Rua João Manoel


Andaimes cobrem a fachada da Prefeitura Municipal durante a montagem.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

BIENAL: GEOPOÉTICAS


A mostra central no Cais do Porto examina a criação de entidades transterritoriais e supraestatais que colocam em jogo a noção de nacionalidade. Essas construções político-econômicas contrastam com as noções de Nação estabelecidas há séculos na conformação dos países americanos após as lutas por independência. A exposição explora diferentes aspectos das ideias de Estado e Nação, suas retóricas visuais (mapas, bandeiras, escudos, hinos, passaportes, exércitos) e suas estratégias de autoafirmação e consolidação de identidade.

A ideia de cidadania está baseada etimologicamente nas noções romanas de civitas e urbanitas. Que tipo de cultura de pertencimento se dá em situações não urbanas? Onde reside a nacionalidade quando se carece de território físico? Algumas obras consideram o território rural como uma possibilidade para a utopia e o isolamento como uma condição positiva; outras analisam diversas estratégias de sustentabilidade e de coesão na ausência de território. Algumas dessas construções nacionais – que, em certos casos, possuem território mas carecem de autonomia política – estarão representadas no interior da exposição em “pavilhões” que denominamos ZAP – Zonas de Autonomia Poética.Desde o mapa invertido de Torres García, a arte tem visitado a disciplina cartográfica para produzir mapas ativistas que não estão a serviço da dominação. A cartografia é um tema recorrente na prática curatorial recente, de modo que se torna inevitável quando se fala de território, pois nela confluem geografia, ideologia e política. A exposição reúne diversas formas de medir e representar o mundo, incluindo artistas que usam mapas para promover a mudança social, psicogeografias, rotas de derivas, mapas afetivos e diversas representações do mundo que contradizem as cartografias convencionais.